Apenas seres humanos

“Aquilo é um caso psiquiátrico sério” – ouvi de uma amiga num dia desses. Ela se referia à fala tranquila de um político acusado de corrupção, se defendendo da atitude absurda como quem se justifica pelo atraso à reunião.

Vi também por ai um grupo de amigas da meia idade se manifestando revoltosas diante de um vídeo que exibia uma briga entre jovens colegas dentro da sala de aula. “Deus, o mundo está perdido com essas novas gerações. Onde erramos?” – disse uma delas com olhar da Fernanda Montenegro interpretando Nossa Senhora em Auto da Compadecida. “Todos doentes. Precisam de terapia ou manicômio” – analisou outra delas.

O primeiro caso é sério, sim, mas porque o cara se usa do poder que os eleitores lhe atribuíram para insultar nossa inteligência e bom senso ao invés de agir produtivamente naquilo para o que lhe pagamos. Não é um caso que se isole num tubo de ensaios, mas que se julgue a necessidade de colocar seus atores às margens sociais. Temos instituições para isso.

O segundo retrata uma hipocrisia que, isto sim, poderia ser diagnosticada. Da mesma geração daquelas honradas senhoras, eu mesmo já tive que correr de pancadarias que divertiam a todos nas saídas das escolas. Porradas que podiam arrancar sobrancelhas, quebrar braços, costelas e pernas. Todas disputadas por jovens, homens e mulheres, de lares dos bairros nobres e periféricos. Membros de famílias estruturadas e saudáveis, jovens que precisam de condutas mais assertivas dos pais, mas não são grupos terroristas.

Talvez causado pela força midiática e as possibilidades de expormos apenas nossos aspectos pessoais positivos através dela, um movimento puritano como o ocorrido na Inglaterra no século XVI parece ressurgir no século XXI. São seres humanos, civilizados e socializados, que se apresentam como quem extirpou as maldades originais das próprias vísceras.

Para os que não conseguem tal “maldadetomia”, as penas inquisitórias vão de diagnósticos sindrômicos a comentários excludentes nas redes sociais. As primeiras, impostas por autoridade oficializada nas incompetentes faculdades atuais. As segundas, autorizadas por fake news, pseudociências, gurus famosos ou Bíblia.

Só de imaginar a reputação dos adjetivos que teríamos que atribuir a nós mesmos, faz escondermos nosso potencial monstruoso no fundo das vísceras. Mas, com um pouco de atenção e coragem, descobriremos que só conseguimos identificar na atitude reprovável do outro o que já foi consciente ou inconscientemente reconhecido em nossas próprias atitudes.

Todos nós temos sensações que impulsionariam às ações repugnantes, condenatórias, criminosas até as mais horrendas imagináveis. Assim como também sentimos vontade de agir no que nos exporia ao risco do ridículo, do vexame e do vulnerável extremo. O que não significa que agiremos como sugeririam essas sensações, claro que não. Temos partes do cérebro que racionalizam, ponderam, pensam, comparam, refletem. Graças a Deus ou à filogenética.

Somos potencialmente bons e maus, felizes e depressivos, invejosos e admiradores, psicopatas e neuróticos, desatenciosos e compulsivos, carrascos e cuidadores, corruptos e éticos, traidores e fiéis. Somos seres humanos, você e eu.

1 thought on “Apenas seres humanos

  1. Olá Álvaro. Bem isso mesmo. Gostei do texto. A ilustração me remeteu a algumas que me são bem familiares. Sua marca. rsrsrs Abraço.

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