Geração “sem estima”

Ouvi agora um áudio desses que circulam pelas redes sociais. Nele, Dra. Filomena fala aos ouvidos da alma de mães e pais que relutam com suas culpas pelo que reprovam no comportamento de seus filhos púberes ou temem para o futuro deles.

Mais profundamente: o tom assertivo de Dra. Filó soa como bronca recebida pelos adolescentes reprovados no interior de cada mãe e pai, que repassam impulsivamente o áudio como que jogando para lá o desafio de olharem-se no espelho com lealdade. Uma reação dos que podem ter a própria “estima”, como referida pela médica, medida com microscópios ou sequer analisada com a coragem devida.

Tenho cautela com discursos daqueles a quem nossa imatura sociedade aprendeu a atribuir autoridade. Principalmente dos que procuram creditar suas explicações com títulos pomposos internacionais, nomes de faculdades famosas ou, o que é pior, citações científicas isoladas. Tampouco conheço estudos confiáveis que mostrem o grau das estimativas que andam fazendo de si nossos pupilos em pré-adolescência – tarefa difícil, se considerarmos a complexidade mutável e diversa da psique em formação. Mas posso concordar com a pediatra fazendo algumas reflexões históricas e sociológicas.

As gerações dos pais dos atuais pré-adolescentes, ou são filhas dos chamados baby boomers ou receberam seus estímulos parentais dessa cultura. Eu sou um deles. Nascido na década de 60, fui criado por quem injetou no sangue os gatilhos e detonadores bélicos. Os pais de minha geração foram formados pela coação. Do parapeito desse estado, prepararam seus filhos à distância, mas com a preocupação de que dominassem seus espaços, vencessem aos demais e garantissem-se em trincheiras socioprofissionais.

Por nossa vez, de dentro de cuecas e calcinhas riscadas de marrom, olhamos para os desafios sem notar nossos estofos para tal. Esse recheio viria a partir da adolescência (na época, uma espécie de campo de batalhas) quando precisávamos construir nossos egos através da comparação e superação alheia. Conquistar um bom grau de normalidade já era para poucos, alcançar patamares admiráveis era para uma minoria especial. Muitos partiram para vida usando-se apenas das partes aprovadas em si e fechando em cápsulas as partes reprovadas. Essas cápsulas se enterrariam na alma transformando-se em minas sobre as quais não se caminha.

E continuamos a caminhar. Uma jornada que se descobriria como árdua e, mais adiante, sem sentido. Tentamos algumas birras hippies gritando em rock’n’roll, por liberdade, amor, sexo, drogas …  esqueçam isso, fomos longe demais. Agarramo-nos às carreiras como fonte única de subsistência, nos casamos bêbados diante dos padres e patriarcas, e tivemos nossos filhos – os pais dos pimpolhos “sem estima”.

Neles tratamos de males inexistentes e a partir de nossos próprios diagnósticos. Aplicamos profilaxias com efeitos adequados às nossas minas ainda enterradas. Nossas minas podem ter se refletido neles e reagimos culposos. Fizemos isso sem notar que o que mais precisavam era simplesmente serem aprovados por nós, pais e mães, em suas propriedades pessoais.  Precisavam de nosso olhar validador.

Por outro lado, reagimos a isso sem notar que nosso medo e preocupação em atuar com as áreas saudáveis da alma, em exercitar as relações mais distantes do campo minado e em reconhecer a produtividade da qualidade de vida, transformaram significativamente os genomas que lhes transmitimos ao ser. Eles são diferentes. Tentamos adequá-los demais sem notar também que as diferenças do meio cultural no qual se inseriram eram bem maiores do que supunha nossa vã filosofia, e que muitos fantasmas desse novo contexto o eram de nossas histórias de vida, apenas.

Na adolescência desses nossos filhos, nós, filhos dos baby boomers, não percebemos também a influência da tecnologia da comunicação na intensidade das interações humanas. Naquela fase, eles não precisaram de tanto esforço como nós para se perceberem normais. Notaram com mais facilidade seus atributos pessoais como adequados ao padrão social, ou puderam ajustar-se sem porradas ou rebeldias.

Aquelas evoluções filogenéticas parecem continuar na herança recebida pelas novas gerações, filhas de nossos filhos. Assim como a cultura diferente de hoje já os influencia com os avanços da humanidade – sim, nós avançamos ulteriormente. A tecnologia, por sua vez, intensifica as relações pessoais em graus medidos em hertz, deixando os padrões comportamentais cada vez mais consolidados – analisando-se 200 de seus likes no Facebook, sabe-se a respeito de sua personalidade melhor que você mesmo.

Ainda concordando com a Dra. Filomena, nossas atuais crianças e pré-adolescentes, precisam aprender sobre frustração, precisam receber limites quando não os notam por si mesmos. Precisam também de estímulos que os force à leitura e cálculos. Isso cria sinapses em suas matrizes cognitivas que vão estruturar novos aprendizados pela vida afora. A falta disso deixará suas vidas a mercê de diagnósticos sindrômicos e intervenções sintéticas. Precisam também, talvez principalmente, ter suas virtudes reconhecidas, verdadeiramente validadas por seus pais, e apropriadas por eles mesmos. Mas a aplicação dessas intervenções parentais a partir de almas subestimadas, carentes de validação, de olhares aprovadores dos que os geraram, pode vir sem medidas, sem percepções como as que faltaram em nós, seus pais.

Apesar das diferenças positivas na geração dos pais dos “sem estima”, eles podem estar precisando de acolhimento e desenvolvimento de suas competências parentais. Temos conhecimento e possibilidades de dar-lhe isso hoje. Façamos isso, então, antes de apenas cobrar-lhes iniciativas.

Alvaro de Carvalho Neto

Conselheiro e mentor de carreira (career couseling), Coach Executivo, Consultor Organizacional.

65 3322-7291

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