Jogo de gente grande: O que precisa ser feito.

Entre as características humanas reconhecemos em nós apenas as de bons conceitos e esquecemos nas profundezas do inconsciente nossa propriedade nativa sobre as identificadas como más. Nem mesmo nas ações para o que desejamos, que se utilizam da sinergia de todos os nossos atributos pessoais, essas competências (!) têm o mérito reconhecido. Os sucessos são geralmente atribuídos aos aspectos floridos dos estímulos que os geraram, e os fracassos, às fluências circunstanciais e inexplicáveis.

A inveja, por exemplo, jamais terá seu reconhecimento na impulsão dos desejos por obter algo ou alcançar algum status quo. Continuará repugnada sob seu conceito depreciativo cujos aprofundamentos nos obrigam a um disfarçado passeio pelas nossas próprias e nativas invejas.

A habilidade da corrupção, por sua vez, se dissolve bem na competência da criatividade quando, por exemplo, se é necessário encontrar o que corrompe as objeções alheias na apresentação de uma ideia. Esconde-se também na flexibilidade, quando se abrem algumas concessões por interesses pessoais, por exemplo. Nesses casos, os limites para estimar o repugnante alienígena estarão nas leis, regras e moral, não em você.

Deixar no campo das complexidades inexplicáveis aquilo que nos foi ensinado como inaceitável, evita que o compreendamos e nos mantém a sensação da ética, da aceitação. Porém, os elementos conceituados como más companhias, não os são assim, apenas acompanhantes, mas componentes de nosso ser humano.

Há algum tempo um cliente, gerente de uma loja de departamentos, me contou sua incômoda necessidade de ter que demitir uma das integrantes de sua equipe. Um time mantido por densas preocupações com a ética, integração e respeito entre seus elementos. Nele, a funcionária, suas qualificações e perfil não caberiam no que o gerente tinha como estratégia a partir de dois meses, mas até aquela data a costumeira motivação da moça seria imprescindível. Caso ela soubesse da demissão prevista não se manteria em estado emocional necessário ao papel que somente ela desempenhava suficientemente bem.

Então, puxamos e jogamos na mesa algumas consequências para analisá-las. O Gerente buscava ocupar sua mente com tarefas que mantivessem afastadas as lembranças do que seria necessário fazer e isso lhe tirava foco e produtividade. Quando frente a frente com a funcionária sentia-se inibido e desajeitado e, com receio de que notassem, passou a ter o que chamou de “mania de perseguição”. Chegou a pegar-se pensando em picuinhas sobre ela e descobriu na nossa conversa que, na verdade, buscava formas de amenizar seu desafio arranjando do que culpá-la. Enfim, ele estava perdendo o controle sobre si e a situação.

Esgotadas as propostas de equação dos arranjos pragmáticos, restou-lhe se preparar melhor para administrar-se no que era preciso. Convenceu-se de que deveria aprender a lidar melhor com suas emoções mesmo com estímulos tão fortes. Isso lhe veio com a certeza de que, se não aprendesse a jogar nas relações com a consciência, jogaria de qualquer forma de modo inconsciente, como vinha fazendo.

Por mais afeto que tenha desenvolvido com a funcionária, descobriu que quando se tem objetivos maiores a frente, o que precisa ser feito tem que ser feito da maneira menos negativa e impactante possível, mas tem que sê-lo. E, priorizando algum alívio a sua angústia, o que ele tinha de mais importante a fazer naqueles dias era aprender a conhecer mais sobre suas emoções e controlá-las no fluxo das estratégias para algum objetivo válido.

Diante da inexistência de alternativas, o caso da demissão prevista de alguém da sua equipe lhe serviu de produtivo laboratório para seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional. Um processo de dois meses quando suas atenções se votaram para detalhes de seu próprio comportamento nas relações interpessoais – exercícios de maturação.

Cada grupo de leitores classificaria com adjetivos diferentes a atitude optada pelo meu cliente, mas olhando-se com maior lealdade para natureza humana, as características conceituadas assim estarão lá de qualquer forma, floridas ou esquecidas, latentes ou latejantes, admiradas ou odiadas, compondo-nos e estimulando nossos jogos relacionais. Agirão então, expressivas ou subversivas. Que seja pela primeira forma e para objetivos maiores.

Quanto a competente funcionária, foi demitida como o previsto e com certeza se encaixou em outras estratégias de outras empresas que também precisaram muito dela.

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