Jovens empreendedores – escolha da profissão

O Portal de Marketing conversou com o criador do Projeto JACAMIM de Desenvolvimento Juvenil, Álvaro de Carvalho Neto. Administrador, professor universitário e consultor organizacional, atua também como Coach Juvenil na Humanizar, um espaço psicopedagógico em Cuiabá-MT. Nesta entrevista ele compartilha sua experiência na formação de jovens empreendedores e dá dicas importantes para começar a vida profissional com satisfação e sucesso.

PORTAL: A grande maioria dos especialistas não admite mais os testes vocacionais como instrumento efetivo e único na escolha da profissão. Como forma de complemento, algumas instituições promovem encontros com profissionais de áreas específicas, tais como a indústria, afim de estimular uma aproximação entre o jovem e a profissão. Que processos são eficientes para conduzir o jovem a uma escolha segura e principalmente, garantindo que essa seja de fato a sua escolha?

ÁLVARO: Uma grande amiga psicóloga classifica homens e mulheres como seres multifacetados, ambivalentes e complexos. Aprendi a concordar com ela. Não somos hardwares cujos softwares que os comandam têm base lógica compreensível. Não acredito em testes vocacionais ou de personalidade.

Como para qualquer decisão, os instrumentos de maior praticidade são informações. É preciso ter conhecimento sobre as possibilidades de cada profissão, suas abrangências e cotidiano; e notar o quanto de seus sonhos se realiza com isso.

Sonhos, desejos, gostos: além das informações, esses são os principais elementos na tomada de decisão profissional, e nos vêem daquelas vozes internas que podem parecer inseguras e pouco confiantes. Processos eficientes são os que partem de estímulos a confiança nessas vozes. Partem de exercícios da autoestima.

PORTAL: Há uma mudança drástica, no perfil profissional do trabalhador no período da industrialização para o perfil deste século. O avanço tecnológico tem grande responsabilidade nesta transformação. Hoje, há uma necessidade de todos tornarem o trabalho dinâmico, rápido e sustentável. Com isso, é muito comum profissionais desenvolverem diversas habilidades para atuarem em funções que aprimoram e ampliam a profissão escolhida. Você é um exemplo disso, pois interage entre a empresa e a educação. Os jovens estão preparados para atuarem neste cenário? Que pontos de uma forma geral são considerados frágeis e precisam ser trabalhados, para que eles possam recriar continuamente sua profissão?

ÁLVARO: Em bate-papos com grupos de jovens pré-vestibulandos, uma das coisas que mais me intrigaram foi a pobreza de informações. Saem do ensino médio com pouco ou nenhum conhecimento sobre os mercados de trabalho e as alternativas que terão neles. Ouvi muitas expressões receosas como “Tenho medo de errar na escolha, pois será algo para toda minha vida”. Parecem ter a impressão de que a profissão ora escolhida será a única de suas vidas.

Concordando com o que diz na pergunta, os mercados atuais exigem uma navegação prazerosa por áreas de conhecimentos diversas. Entre especialistas encontram-se profissionais realizados com alguma única escolha que pode ter sido a terceira, quarta ou décima de suas vidas e, entre os “generalistas”, como eu, encontram-se profissionais que notaram a necessidade ou simplesmente se encantaram com a sinergia entre o que já sabiam e o que ainda precisavam saber e conhecer.

Aos que chegam nessa etapa aprazível é preciso dizer que terão trilhas que se interligam infinita e dissipadamente e não apenas um trilho rígido de direção única.

O ponto a se trabalhar é esclarecer. Durante os três anos do ensino médio, incluir momentos de pesquisa sobre mercados, profissões e seus cotidianos; deixar que provem sensações do que podem exercer em suas vidas. Assim, pode-se, além de encaminhá-los, também dar maiores sentidos ao que aprendem na escola, nas disciplinas chatas: matemática, por exemplo.

PORTAL: Segundo especialistas, a ansiedade e a indecisão são características comuns na adolescência, que é vivenciada dos 13 aos 20 anos aproximadamente. Neste período, o jovem se depara com uma importante escolha: “que profissão seguir?”. Como trabalhar essa decisão respeitando o processo de desenvolvimento em que vive? Como a família pode contribuir no êxito dessa decisão?

ÁLVARO: Analogamente, é preciso que os pais, ou quem assume esses papéis na vida de jovens e adolescentes, estejam presentes justapostamente e não sobrepostamente. É necessário separar responsabilidades com sobrevivência, afeto e educação das responsabilidades com atribuições da vida autônoma necessária a cada um. Essa última é dever e direito do filho, do jovem, e ele precisa percebê-la desde os primeiros momentos da escola. Isso também é validar. Nas conversas com grupos de jovens, notei também uma grave preocupação: a grande maioria parece se preocupar tremendamente com a retribuição que precisam dar aos pais que propiciaram seus ganhos até aquele momento. Uns, talvez mascarando o medo da própria decisão, justificam assim o acatamento às sugestões de carreira dos pais, e outros, por sentimentos de culpa ou dívida para com quem lhes deram as possibilidades da vida.

Uma das minhas dicas a jovens do terceiro ano do ensino médio num jornal interno de um grande colégio foi: “Primeiro você. Nas viagens de avião, em caso de despressurização, os comissários orientam-no a colocar uma máscara primeiramente em você e depois nas pessoas que precisam de ajuda. Não retribua às pessoas que lhe ajudaram até aqui deixando que elas escolham por você. Cuide-se e se fortaleça primeiro naquilo que escolher, depois ajude a quem quiser e precisar.”

A relação entre pais e filhos precisa ser mais comensalismo consciente que simbiose inconsciente. A primeira requer maturidade.

PORTAL: Em seu artigo “Chave da Vida”, você escreveu “…É preciso então que pais se desprendam do poder coercitivo paternal e se revelem com a autoridade dos grandes líderes, que se admitem errantes, frágeis, mas com carisma e experiência de vida suficiente para fazer valer sua avaliação assertiva: “Você pode, filho. Você está pronto”. Na falta da validação através da família, qual é o caminho a seguir? Onde buscar referenciais? Os jovens podem nomear outros libertadores?

ÁLVARO: Não acredito na validação libertadora, como me referi no texto, vinda de outras pessoas que não as reconhecidamente provedoras da sua própria existência. Dessas autoridades, os adolescentes se mantêm dependentes por elos inconscientes que precisam ser gradativamente rompidos nos momentos certos, a partir do reconhecimento assertivo à evolução de sua autonomia. Dessas “entidades”, os adolescentes esperam aprovação e a “ordem para partir”.

Em consultoria a empresas de pequeno porte, tenho visto pessoas que me parecem reagir automática e permanentemente a si mesmas. Agressiva ou timidamente, atuam como se não pudessem aceitar ou mostrar alguma parte delas próprias. Fico pensando se essa parte não teria sido desaprovada por alguém que deveria tê-la validado no período propício. Penso também no desconforto de se obrigar a manter vigilância constante sobre suas próprias expressões.

A psicologia responderia melhor a isto, mas, na juventude, pouca validação e reprovações conscientes ou inconscientes de adultos próximos, têm suas conseqüências aumentadas exponencialmente e em sentidos imprevisíveis. Como coach juvenil, na maioria dos clientes, eu trabalho com esses efeitos tentando dirigi-los para caminhos saudáveis e produtivos.

PORTAL: O projeto Jacamim se foca no desenvolvimento da autonomia, estimulando o jovem a ser o autor das suas próprias oportunidades e a fazer suas próprias escolhas. Como buscar o equilíbrio entre a liberdade de escolha e as exigências do mercado de trabalho? Que cuidados são essenciais para que o jovem não caminhe pelos extremos?

ÁLVARO: Os sonhos são a resposta. A renovação de objetivos e sonhos é constante em toda a nossa vida. Eles serão ou deverão ser as nossas escolhas. A falta deles é deprimente e medíocre, a existência deles é motivadora e justificará qualquer exigência do mercado de trabalho.

Tenho visto pequenas empresas se fecharem precocemente pelo desprezo aos sonhos dos fundadores. Os problemas do dia-a-dia se tornam o foco primeiro, para eles todas as energias se voltam e neles não se percebem muitos estímulos para continuar. Estes virão dos sonhos mantidos acesos e pulsantes adiante.

Da mesma forma, nas carreiras profissionais os sonhos devem existir sempre. Serão para eles que se voltarão os esforços e neles se justificarão o cumprimento às exigências impostas pelo mercado de trabalho. Esses se tornam, então, desafios, obstáculos a se vencer no rumo da auto-realização.

O cuidado que se deve ter entre os extremos é articulação entre eles: entre o que é preciso fazer e para o que é preciso fazer. Será necessário aprender a gostar do que tem que ser feito.

PORTAL: A competência tecnológica tem sido cada vez mais uma exigência em todas as profissões. Atento a essa demanda, O Portal de Marketing! Planejou uma série de cursos que capacitam os jovens a empreender na web e a usar a tecnologia como uma ferramenta eficaz nas diversas profissões. Na sua opinião esta ação contribui para a ampliação do sentido da tecnologia na vida dos jovens?

Este ambiente de criação e produção de recursos são ações motivadoras que estimulam a tomada de decisões e exercitam o prazer da escolha?

ÁLVARO: Acho que mais que o prazer da escolha, o uso produtivo da tecnologia, informática principalmente, em direções estratégicas é um exercício saudável também para o processo de escolhas.

No ambiente web tem-se o simples impulso como reação ao encantamento de um banner atrativo. Isso dissipa energias entre interesses instantâneos e desejos fortes. Cansaço sem muita eficácia. Aos jovens acostumados a esse ambiente delirante faltam exercícios de foco. Escolher o que se quer fazer com os recursos da web se exercitando nesse rumo decidido e se recusando aos chamamentos periféricos, pode ser um baita aprendizado de concentração e efetividade.

Por outro lado, ouvi sobre estatísticas que mostram os cursos das áreas de conhecimento relacionadas à ciência da computação como alguns de maior índice de desistência, devido, principalmente, ao motivo da escolha: poder desenvolver seus próprios joguinhos.

Como li de David Furlan, não se pode antecipar tecnologia ao projeto. Seu projeto é realizar seus sonhos, suas tecnologias e profissões serão apenas seus instrumentos nisso.

PORTAL: Se você pudesse dar um único conselho aos jovens empreendedores do Portal de Marketing!, o que seria primordial dizer a eles?

ÁLVARO: Uma fábula. Um forasteiro passeando num parque da cidade interiorana notou em muitas árvores um alvo desenhado em seus caules, com um tiro, aparentemente de escopeta, bem na mosca, precisamente no centro do alvo. Sua curiosidade o fez saber através de comerciantes da cidade que se tratava de um homem apelidado de “maluco do parque” que, em determinado horário, visitava o parque dando os tais tiros. Escondido atrás de arbustos o forasteiro pode ver a próxima chegada do “maluco do parque” que quase encostava o cano de sua escopeta nos caules ainda não atingidos, atirava e, depois, com muita paciência e habilidade, desenhava o alvo em volta do buraco da bala.

Reflita então, jovem empreendedor, em que momentos você desenha o alvo em volta de si mesmo, justificando a posição e estado em que está e; diferentemente, em que momentos você define quais são seus alvos, suas metas, seus objetivos, colocando-os em pontos estratégicos e compensadores.

O empreendedor, acima de tudo, sabe o que quer, escolhe bem seus objetivos e caminha no rumo deles com muita vontade e muitas das características que você, eu e todo mundo tem potencialmente em si. Você não tem desculpas.

PORTAL: A busca de um administrador pelo desenvolvimento de jovens empreendedores supõe uma relação entre o trabalho e a educação. A escassez de profissionais realizados e os problemas relacionados ao desempenho e competência no trabalho estão ligados a uma debilidade na formação desses profissionais? O mercado de trabalho sofre por causa da omissão da educação?

ÁLVARO: Se já pudéssemos medir o grau dessa debilidade teríamos um significativo indicador do quanto ainda perdemos econômica e socialmente pelo que chamo de miopia da educação[i]. Assim como gestores empresariais que se focam mais nas tarefas que nas estratégias, os dirigentes educacionais parecem buscar soluções apenas melhorando o que deve ser mudado.

O empreendedorismo não tem sua força voltada apenas para os negócios. São qualificações comportamentais importantes em quaisquer atividades da vida adulta, seja em quais sentidos forem. E são mais facilmente desenvolvidas se estimuladas nas fases etárias mais jovens, de maior poder assimilativo. Características como objetividade, responsabilidade, iniciativa, comunicação, relacionamento, etc. precisam ser descobertas e alimentadas desde a educação fundamental sobre bases de autoestima, autoconhecimento e autoconfiança.

Para o mercado de trabalho, exigente, as etapas não cumpridas pela educação regular significam demora e custos na adequação dos jovens profissionais e, para esses pupilos, tal debilidade significa desafios que podem impulsioná-los ou, mais perigosamente, acuá-los em carreiras medíocres.

[i] Termo composto a partir do citado por Theodore Levitt com significado similar em marketing: miopia em marketing.

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