O que o Coaching tem a ver com a Democracia?

 

Um paralelo entre Democracia e empreendedorismo com a influência do Coaching.
Artigo publicado na Revista Coaching Brasil, edição de janeiro/2015.

Um empreendedor começa seu negócio a partir de grandes idéias que intuem possibilidades para a realização de sonhos encantadores. A partir daí a empreitada exige muito esforço pessoal, persistência, compromissos arriscados, vínculos de confiança frustrados – poucos consolidados, e muitos outros prazeres adrenais que agora fazem surgir novos objetivos tão bem justificados quanto os velhos sonhos do início da jornada. O empreendimento se transforma, então, numa empresa. Sob o controle e direção do imaturo empresário, pessoas tentam se organizar a sua volta e em prol de seus clientes. Nesta fase, ele provavelmente ainda exercita seu poder pessoal alimentando-se emocionalmente dele.

Quando conscientizado da necessidade de profissionalizar seu negócio – organizá-lo sistemática e estrategicamente, o então proprietário de empresa ainda persistirá com muitas das suas antigas condutas que, no seu entendimento íntimo, foram as únicas alternativas capazes de levá-lo até onde chegou. Inicia-se aí um árduo e longo processo de crescimento pessoal e profissional do qual depende a saúde competitiva de toda a corporação que, por sua vez, sob o exemplo e influência do dono mais amadurecido, também desenvolverá suas demais pessoas.

Doravante, esses profissionais passam a atuar motivados pelos resultados formais de seus respectivos papéis na organização. Buscam, através de suas maturidades sempre em evolução, o crescimento do que interessa a todos por meio do que interessa especificamente ao seu cargo. Deixam de fazer pela pessoa do dono e passam a fazer por si, pela equipe, pela marca e pelo cliente. Essas mudanças têm causa prática: a capacidade de crescimento do que o empreendedor domina é limitada ao ponto da transformação necessitada lá atrás e, ao contrário, a empresa organizada poderá crescer globalmente sem perder sua identidade corporativa.

A democracia, assim como os negócios, segue em seu desenvolvimento dependente do amadurecimento da população que dela desfruta. Na mesma toada que se fortalecem aspectos democráticos de funcionamento do país, as pessoas que nele vivem devem ir se preparando para busca autônoma e livre dos próprios resultados e desejos; devem ir se parindo da mãe refletida nas autoridades dos supervisores, proprietários e governantes; precisarão se livrar da sensação excludente e se reconhecerem humildes pertencentes do todo acessível a todos; carecerão notarem-se adultas que tudo podem justamente, porque sabem o que se pode e o que não se pode no sistema quase impessoal que as rege.

Isto não é utópico e, ao mesmo tempo, não se trata de tarefa fácil. Não é problema que se resolva com iniciativas mercadológicas interesseiras, copiadas e colocadas em pacotes bonitos, para cujos rótulos é atraída (traída?) a atenção da mesma criancice coletiva que se pretende amadurecer. “O problema é cultural”, como se discursam em justificativas comodistas por aí. No entanto, não se altera a cultura nacional de forma direta, mas a partir de medidas específicas e pontuais que resultam em dinâmicas que, estas sim, influenciam significativamente a esses tensores socioculturais. Iniciativas aparentemente pequenas, mas que trazem no bojo a intenção verdadeira, ética e corajosa de fazer gente crescer: estimulando a conquistar a vara, ajudando na descoberta dos próprios potenciais para a pesca e apontando assertivamente para tais virtudes como propriedades legítimas e originais na pessoa do pescador.

Sempre existiram ações com propósitos leais como esses. Contos milenares personificam grandes mestres chineses ou filósofos gregos, hábeis na sutil tarefa de transformar pupilos em substitutos, por exemplo. Ainda neste século, muitas pessoas se exercitam informalmente na prática do desenvolvimento pessoal honesto. Nos sistemas educacionais formais alguns poucos educadores também têm se mostrado bons no estímulo produtivo de seus alunos. Entretanto, nada aglutinou tantas dessas nobres possibilidades como os processos que se institucionalizaram ha décadas atrás como coaching – de forma simplista: estímulos sistemáticos ao alcance de novas, desafiadoras e nobres metas, com destaque e reforço das possibilidades autônomas para empreitadas assim.

As sensações do sucesso pessoal e/ou profissional alcançado a partir dos próprios esforços são as mesmas que estimulam aos insistentes empreendedores na busca por objetivos ulteriores. Impregnam e estimulam a novos desafios, num treinamento cíclico e transformador de potenciais em habilidades que, por sua vez, geram autoconfiança e autoestima: pessoas amadurecidas e gestoras de si mesmas – mantenedoras dos processos democráticos.

O contrário disso também é tentador e, talvez, o mais fácil a se fazer. O prazer do comodismo encontrará consolo na massa medíocre que é também hábil em justificar suas opções. No entanto, se por um lado aumenta o número de pessoas éticas em movimento de autogestão na dinâmica cultural, por outro, a admiração latente vai se expondo nos corajosos novos empreendedores da democracia.

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