Pontos fortes X pontos fracos: como identificá-los e usá-los em benefício próprio?

Artigo de Álvaro de Carvalho Neto publicado na Revista Ser Mais (SP), edição 53.

A menina acanhada. Toques entre mãos diferentes, abraços sorridentes, diálogos intensos e agradáveis, todas as formas normais de convívio entre os demais adolescentes eram assistidas em cada detalhe pelo olhar tímido e distante de Beatriz. A menina acanhada, como era conhecida pelos professores, estava quase sempre quieta e observando de longe a tudo e a todos na escola.
Preocupada em torná-la mais comunicativa, a coordenação providenciou para que o professor de educação física a incluísse no time de vôlei, onde recebeu de sua inabilidade esportiva um lugar cativo no banco de reservas. Nos jogos, seus músculos se enrijeciam em resposta à certeza de que estava sendo observada. Bia era rapidamente substituída, voltando para sua posição preferida: de fora e observando.
Além da permanência de Beatriz na equipe do vôlei, toda a classe se surpreendeu também com as transformações da colega. Seu significativo ponto fraco, a timidez paralisante, possibilitou que ela desenvolvesse uma potente habilidade de aprendizado, observação e registro dos detalhes. Enquanto afastada dos movimentos no banco de reservas, Bia acanhada aprendeu como ninguém as regras, técnicas e artimanhas do vôlei. Passou a descrever em minúcias os trejeitos dos jogadores em seus movimentos para levantar a bola e pular acima da rede, e discorria confortavelmente sobre posições para defesa e ataque.
Apesar de não entrar em quadra durante os jogos, assumiu um papel de aconselhamento ao técnico que passou a ouvi-la respeitosamente nos treinamentos. Ele sempre contava com a capacidade de observação e análise de Beatriz para armar suas estratégias de jogo, mas sabia que para jogadora ou relações públicas ela não seria uma boa escolha.
Você não tem desculpas. Provavelmente, a inabilidade social de Beatriz ainda permaneceu por muito tempo escondida em suas vísceras, repelindo as atenções e iniciativas para qualquer direção oposta. Ou seja, como o aprendizado sobre o vôlei, muitas das realizações dela podem ter tido motivações geradas da sua busca interior por compensações à incômoda parte não aceita. Até mesmo o medo da exposição e prazer no isolamento de Beatriz têm suas causas mais profundas, mas, nem o técnico de vôlei, nem a própria Beatriz, consideraram isso para descobrir a nova habilidade da moça. Focadas no próprio interior, as pessoas tendem a ficar onde estão, justificando-se a bel-prazer por seus sucessos e fracassos.
Onde estão suas forças? Você, leitor, assim como Beatriz, certamente concluiu um ensino fundamental. Estudou em tempo de se divertir, teve dúvidas, buscou aprender mais com professores e, até mesmo, ousou colar de alguém nas provas. Todos esses esforços foram seus. Apesar do apoio que com certeza tinha de sua família, apesar de não ter sido você mesmo quem o meteu naquele desafio, apesar da sua provável autodesconfiança, os méritos pela conclusão daquela fase escolar são todos seus. Que pontos fortes você identifica em você agora por tal conquista? Persistente, bom negociador, flexível? Sejam quais forem os adjetivos e por mais remotos que os perceba, considere-os em seus próximos desafios porque você já provou no passado que os têm verdadeiramente. E assim estarão também outras incontáveis e misturadas competências em seu íntimo neste momento, prontas para se desenvolverem no rumo dos objetivos que você definir.
Defina objetivos. Descobrir pontos pessoais fortes e fracos parte de experiências, ensaios e exercícios da prática – da reflexão sobre acertos e erros do passado; da autoconsciência e autoconfiança nos planejamentos do presente; e da efetividade na realização de metas de futuro. Somente tendo o que fazer com eles, Beatriz conseguiu identificá-los sem grandes conflitos. Ou seja: forças ou fraquezas, assim serão definidas se suas utilidades para algum objetivo específico forem, respectivamente, positivas ou nem tanto. Ambas são qualificações de desempenho apropriado para algo – precisam de referências para existir.
Planeje-se. Nas décadas de 60 e 70, estudiosos americanos desenvolveram uma ferramenta para análise dos ambientes mercadológicos, cuja ideia tem ajudado também no desenvolvimento pessoal e profissional. A partir de um objetivo almejado, consideram-se os riscos e possibilidades do meio, em contrapartida às forças e fraquezas que se têm para, respectivamente, enfrentá-los e aproveitá-las.
Então, depois de definir com alguns detalhes o que você quer alcançar e quando o quer, descreva todas as oportunidades que já souber e conseguir prever. Faça o mesmo com as ameaças que enfrentará a caminho de sua meta. Depois, procure elencar suas forças – as competências que sabe que tem e precisará para alcançar seu objetivo, aproveitar as oportunidades e enfrentar as ameaças. Não se esqueça das suas fraquezas. Pense nelas como aspectos de seu desempenho que podem ser insuficientes para compensar os riscos que já previu e/ou para utilizar-se das possibilidades esperadas.
Aja. Seu planejamento lhe servirá apenas para reposicioná-lo diante do que terá pela frente, mas somente as suas ações lhe trarão a realização do que você almeja. Durante o caminho estará desmistificando ameaças, se deliciando com as oportunidades, transmutando muitas das fraquezas de sua lista em alavancas de impulsão, descobrindo-se com novas e potentes forças. Aproprie-se delas, serão originalmente suas.
Então, os objetivos pelos quais planejou alcançar com seus pontos fortes e fracos podem ter lhe servido apenas de marcos e estímulos para sua evolução enquanto pessoa.

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