Sociedade entorpecida.

O marketing veio a partir da necessidade de se antecipar o mercado ao produto ou ao serviço. Ou seja: as preocupações apenas com o produto e seus atributos se tornaram insuficientes diante do que já tinha e pedia o mercado. As necessidades mais fundamentais da sociedade consumidora já eram satisfeitas de uma maneira ou de outra. A tecnologia ajudou nisso: facilitou a padronização da qualidade percebida na oferta; banalizou os destaques estruturais e reduziu o valor do benefício central – os produtos se tornaram mercadoria (commodities).

Então, as empresas se focaram no valor agregado e nas aparências de si mesmas e de suas ofertas, que passaram a se desenhar especialmente para o que notavam encantar as pessoas. Priorizaram esses desejos e sonhos do mercado e formataram todo o resto em função disso.

Os demais setores da sociedade aprenderam e seguiram o mesmo caminho. Não importando quais e de que padrões eram esses anseios, tudo passou a se guiar por eles. Estimular, vender, convencer, atender, agradar e fidelizar se tornaram as palavras de ordem por décadas. E com o aumento exponencial da competitividade, da complexidade demográfica, e das possibilidades midiáticas, a condição “a qualquer preço” se juntou a elas.

Preço este que foi se tornando alto demais na mesma medida e velocidade que também as instituições estruturantes da sociedade – política pública e educação, por exemplo – mediam as próprias performances exclusivamente pela satisfação que a aparência de seus brindes causavam.

As ciências, por sua vez, enquanto eixos de evolução e sustentação do conhecimento e cultura, perderam crédito e espaço para os movimentos puramente midiáticos. Foram encostadas na área de serviços do campus universitário, de onde servem e legitimam os apelos mercadológicos por abordagens e argumentos mais persuasivos.

Com tantos e potentes estímulos para o efêmero em contrapartida às ínfimas iniciativas para seu crescimento, autonomia e aprendizagem, a sociedade se tornou demasiado imatura e vulnerável. Duas grandes massas passam a compô-la fundamentalmente: uma vulnerabilizada pela falta de conhecimento e informações e outra pelo excesso de informações e falta de sabedoria. Com a velocidade de crescimento das redes informáticas, o primeiro grupo está se juntando rapidamente ao segundo.

Para essa grande massa se dirige o desejo inconsciente de pertencimento das pessoas. Todos querem estar aceitos, pertencentes e recolhidos como “normais”. A propriedade gregária do ser humano gera seus estímulos a partir das profundezas da alma e, sem controle consciente da sabedoria adulta, nos põe a mercê da dinâmica coletiva.

Os valores dogmáticos se dissolveram com o “conhecimento” dissipado que, por sua vez, adquiriu autoridade divina e nos impôs a pós-verdade – sem certeza de mais nada, a sociedade prioriza sua participação na massa forjando “verdades”, em detrimento da realidade. O que todos “sabem” se torna mais importante do que a verdade científica pouco aceita.

Nesse contexto dinâmico ainda permanece um grande mas insuficiente número de pessoas que se preocupam com o que preveem para o futuro. Indivíduos que provavelmente tentam entender algum sentido para o novo rumo tomado, buscando explicações práticas que apontem para suas próprias incompreensões ou inflexibilidades. Talvez, algumas poucas reflexões sobre o que fez evoluir a humanidade poderiam eximi-los dessa culpa.

Que Deus nos ajude.

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